O avanço do mercado livre de energia perdeu força no início de 2026, pressionado pela alta dos preços e pela volatilidade. Dados da CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica) mostram que a migração de consumidores caiu 15,9% em janeiro e despencou 52,6% em fevereiro na comparação anual.
No bimestre, a retração chega a 32,3%, sinalizando uma desaceleração relevante na expansão do Ambiente de Contratação Livre (ACL). O movimento ocorre após um período de forte crescimento. Em 2025, mais de 21,7 mil consumidores migraram para o mercado livre, impulsionados por descontos expressivos nas tarifas em relação ao mercado regulado.
Esse cenário mudou. Segundo Walter Fróes, CEO da CMU Comercializadora, as vantagens competitivas que o mercado livre de energia tinha em relação ao mercado regulado de energia (aquele atendido pelas distribuidoras) ficou cada vez mais apertado.
“Já diminuiu a migração. Fizemos uma reunião de planejamento estratégico e tínhamos uma meta de colocar pelo menos 20 consumidores novos por mês. Reduzimos a meta para um”, afirmou Froes.
Segundo o executivo, as condições que antes viabilizavam economias relevantes praticamente desapareceram. “Migração convencional com ganhos de 20% a 28%, como foi no ano passado, esquece. Hoje, se a diferença for de 2% em relação ao mercado regulado, já é uma vitória”.
A perda de competitividade do ACL está diretamente ligada ao aumento dos preços de energia, influenciado por fatores estruturais e conjunturais. Entre eles, a menor oferta de contratos no longo prazo e a maior incerteza na formação de preços no curto prazo.
Apesar de um cenário hidrológico mais desafiador, Fróes afirma que não há uma crise hídrica em 2026 que justifique os patamares atuais de preços.
Agentes do mercado têm relatado que um grupo restrito de grandes geradoras tem reduzido a oferta de energia no mercado futuro. Com isso, parte da energia acaba sendo comercializada no curto prazo, ao PLD (Preço de Liquidação das Diferenças), que tem apresentado níveis elevados.
O CEO da Genco, Alan Zelazo, conta que o atual patamar de preço não traz benefícios para o consumidor sair do mercado regulado e migrar para o livre. “Outra questão, é que dois grandes geradores têm liderado um movimento proposital para que as comercializadoras não tenham lastro de liquidez”, frisa.
O CEO da da Tradener, Guilherme Ávila, acrescenta que, além da oferta restrita, a volatilidade tem sido um fator decisivo para frear novas migrações.
“A volatilidade compromete a migração, pois está muito acima das expectativas dos agentes de quando fizeram seus contratos e do histórico do setor. Isso afeta os clientes e fornecedores de energia”, disse.
Outro ponto que pesa contra o avanço do mercado livre é a perda de benefícios regulatórios. O fim dos descontos nas tarifas de uso do sistema de distribuição (Tusd), por exemplo, reduziu parte da atratividade econômica para novos consumidores.
Com isso, o perfil das migrações também começa a mudar. Enquanto grandes consumidores eletrointensivos já migraram em massa nos últimos anos, o crescimento agora depende de consumidores menores, para os quais os ganhos são mais limitados.
Para Ávila, uma economia de 10% a 20% ainda pode ser considerada relevante, mas tem impacto menor do que os descontos observados anteriormente, reduzindo o incentivo à mudança. O resultado é um mercado mais cauteloso, com comercializadoras reduzindo metas e consumidores postergando decisões.









